quinta-feira, 6 de março de 2014

Texto da protetora Ana Rita (FRADA Joinville/SC)

2014
Já passou da hora de respeitarmos  nossos companheiros de jornada neste 
planeta. 


E assim, de repente, os homens sumiram da face da Terra. E junto com eles, sumiram também todos os cadeados, as correntes, as gaiolas, os laços, as grades, as redes, os confinamentos dos zoos, das granjas, dos criadouros. Sumiram todas as ferramentas usadas pelos homens para humilhar, escravizar, maltratar, explorar os animais.

Quando viu que não tinha mais aqueles ferros ao seu redor, a porca parideira nem acreditou! Ela podia se mexer, levantar, andar. E o mais incrível: podia ver seus filhotes inteiros, não somente a parte que o confinamento imposto lhe permitia ver. Eles eram muito lindos! Pena que nunca pude ver todos os outros que já nasceram de mim! 

Nossa, vou poder viver até os meus 15 anos, pensou a galinha poedeira! E vou poder ciscar na grama junto com meus pintinhos! Meus pintinhos não irão mais para a trituradora! Poderão crescer e se tornar galos despertadores! Não vão mais queimar os bicos das minhas pintinhas! Elas não vão ter que passar pelo que eu passei!
Estou livre das máquinas que sugam não somente meu leite, mas também o meu espírito, pensou a vaca leiteira! Vou poder dar o meu leite para o meu bezerro, já que afinal é para ele que eu tenho leite! E não vão mais me separar dos meus filhos quando nascerem, levando eles para aqueles cubículos sem luz, para que cresçam só até os seis meses, anêmicos, porque os humanos acharam que era bom comer baby beef, ou vitela. Carne branca, com sabor de horror.
Ao ver que sua pata estava livre do grilhão pesado que sempre estivera ali, o elefante, que já tinha memorizado até onde podia ir, foi um pouco mais longe. E mais longe e mais longe até que finalmente acreditou que era senhor do seu destino. Que não teria mais que obedecer aos comandos sentar, erguer uma pata, erguer a tromba. Ele iria erguer a tromba sim, mas para pegar as frutas mais altas que alcançasse. As folhas que tantas vezes imaginou comer.
Quando se viu sem a gaiola ao seu redor, o canário primeiro se encolheu, depois ficou com medo e, por fim, pensou: Eu tenho asas e asas são para voar. Por que não? E devagarinho foi batendo suas asas, depois com mais intensidade, levantou voo, foi para a esquerda, para a direita e quando viu, estava no alto, voando. Voando! Foi para isto que Deus lhe deu asas! Pôde sentir o vento a favor. Flutuou! Planou e depois voou mais um pouco! Tudo aquilo era muito bom! 
Os golfinhos contaram para as baleias, que avisaram as sardinhas, que disseram para os atuns que não havia mais redes, arpões e nem parques de diversão! Que o mar e tudo o que nele estava, era deles! Só deles!
A raposas ficaram extasiadas em saber que a pele delas seria somente delas! Que não teriam mais que ser esfoladas vivas para que egocêntricas personalidades se exibissem. E o mesmo sentiram os minks, os visons, as vicunhas e até os coelhos. Se quiserem se esquentar, se virem com o que Deus lhes deu!
Talvez agora tenha uma chance, pensou o urso polar! Pode ser que agora esta calota polar deixe de derreter tão rapidamente e vou poder voltar aos lugares que antes eu ia! Meu mundo não vai acabar!
Vou galopar por onde quiser, sem ter nenhum arreio na minha boca para me dizer para que lado ir, sem levar nenhum estorvo no meu lombo, rejubilou-se o cavalo! Não mais puxar carroças para entreter os sem noção ou para carregar o lixo dos outros! 
Espreguiçando-se, o ágil gato também se deu conta de que agora não mais se livrariam de seus filhos em caixas, em sacos plásticos, jogados em rios. Acabaram-se os rituais satânicos por causa de sua involuntária cor. Que os sádicos não mais se aproveitariam de sua fragilidade para satisfazerem seus instintos maléficos.
E o cachorro pensou: Puxa, não vão mais fazer meus irmãos lutar em rinhas, não vão mais fazer minha mãe ter uma cria atrás da outra para que o desocupado ganhe dinheiro fácil, não vão mais abandonar filhotes e nem abandonar meus amigos como covardemente sempre faziam! Chega de passar a vida acorrentado, conhecendo só meio metro do mundo! Chega de servir de cobaia para os humanos testarem seus remédios. Eles que testassem neles mesmos, afinal, nossa genética é muito diferente, pensou o cachorro. 
Enfim, a Terra tinha se tornado um lugar bom para os animais. O pior predador já visto tinha sumido, para nunca mais voltar!
De Ana Rita Negrini Hermes