segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Belíssimo texto de Paula Brugger para reflexão



TAO DO BICHO - PAULA BRÜGGER

O cão enfezado

19 de dezembro de 2012 às 11:00

A alma resiste muito mais facilmente às mais vivas dores
do que à tristeza prolongada – Jean Jacques Rousseau
O cão não é meu. Mora aqui perto de casa. É um dos dois cachorrões que levo para passear de vez em quando. Paisagens diferentes, novos sons e odores insólitos que eles seguem como fitas coloridas, podem aliviar – concluo na minha condição humana – o sofrimento decorrente da privação da sua liberdade. Esses meus dois amigos passam a maior parte de seus dias aprisionados pela frieza de correntes de aço que, elo por elo, transformam sua experiência no mundo num mísero território de quatro metros quadrados. Como são grandes têm, na lógica especista dos humanos, “vocação” para a guarda. Pobres grandalhões com alma de criança!
O cão enfezado sai comigo pelas ruas quase me arrastando, com enforcador e tudo. Em nosso percurso desperta a simpatia de alguns, o medo ou a desconfiança de outros e o olhar um tanto indignado de pessoas que devem pensar: “como é que alguém sai com um animal que não consegue dominar?” Algumas se solidarizam quando digo que o cão não é meu e explico as razões de estar ali com ele. Mas, independentemente do que achem ou pensem elas, o que tenho ao meu lado é um companheiro sociável e muito inteligente. Fica tão feliz de sair por quarenta minutos, uma migalha semanal na imensidão do tempo, que brigar com outro animal ou atacar um humano seria a última coisa que ele faria.
Talvez ele pareça um tanto assustador pelo seu jeito bravo ou irritado. Ele caminha rápido, como quem tenta recuperar o tempo perdido. Quer viver em menos de uma hora o que a vida lhe nega durante as outras mais de cento e sessenta horas da semana. Ele deve sentir-se, como diz a letra da música de Lulu Santos, como uma “mola encolhida”. Por onde passa – alfa garboso, demarcando pacientemente seu território – atiça paixões caninas femininas e atitudes às vezes meio agressivas de outros machos de sua espécie. Quando provocado, digo: “não dá bola pra ele não, vamos continuar nosso passeio!” Ele me olha língua pra fora, olhar de algodão-doce e segue em frente, plácido como uma manhã de domingo.
O cão enfezado defeca várias vezes durante nossos passeios [1]. Daí seu codinome. De fato, o termo enfezado significa repleto de fezes, uma condição que provoca mau humor e uma sensação de ira. Quem pode culpá-lo? Quem gostaria de passar a vida preso a uma corrente levante o dedo! Quem o acorrenta não vê (ou finge não ver) nada de errado nisso. Claro, aquele que acorrenta tolhe, não perde a liberdade e, afinal, cachorros são apenas cachorros. O cão enfezado consegue, até certo ponto, controlar seus esfíncteres e gerenciar a saída de seus excrementos, adiando o contato e a convivência com seu mau-cheiro e potencial patogênico. Mais um sofrimento para os acorrentados como também é o caso de porcos, galinhas e outros animais de fazendas industriais. Para esses últimos a convivência com os excrementos – algo que, repito, todo animal procura evitar – é uma espécie de casamento sem direito a divórcio: é até que a morte (no caso, o abate para consumo humano) os separe.
Não levo os dois grandalhões para passear exatamente por prazer, embora a maioria das pessoas deva pensar assim. Não consigo não levar, mas não conseguir não fazer alguma coisa não é o mesmo que gostar de fazer essa coisa, da mesma forma que sobreviver não é viver. Tudo começou com uma tentativa – mal-sucedida, vejo agora – de mostrar aos donos dos grandalhões o que quanto eles ficavam felizes com meros três quartos de hora perambulando pelas ruas, brincando de ser – durante esse curto tempo – quase cachorros de verdade. Uso aqui a palavra “dono” porque esse é o vocábulo que define melhor a relação de propriedade entre esses humanos e seus objetos de estimação (será que são estimados?). Mas não consegui convencer ninguém de nada. Os donos alegam falta de tempo ou condição física para levá-los para passear. Ambos, porém, são mais jovens que eu e pertencem a famílias numerosas. Por que eu deveria ter tempo e condições e eles não?Concordo com o físico Michio Kaku sobre a importância de permitirmos o desabrochar dos nossos talentos e habilidades individuais. E, também, que nossas atitudes devam ser no sentido de ajudar a construir um mundo melhor do que aquele que encontramos ao nascer.A linha de argumentação de Michio Kaku vai no mesmo sentido de dois pilares que propus para a construção de uma educação genuinamente ambiental na terceira edição de meu livro “Educação ou adestramento ambiental?” O oitavo pilar apregoa que uma educação ambiental e crítica deve estimular o florescimento dos atributos individuais ao mesmo tempo em que postula uma orientação ética rigorosa no que tange ao bem-estar coletivo, incluindo o dos animais não-humanos; e o décimo pilar trata essencialmente da promoção de ideários e atitudes altruístas, ou eco-ações.Em teoria, magnífico! Mas na prática me sinto freqüentemente “como uma mola encolhida”, tal qual o cão enfezado, com a sensação de estar permitindo que sonhos importantes e o florescimento de atributos pessoais que se concretizariam em momentos aprazíveis sejam inviabilizados, erodidos pelo tempo. A fórmula para o sucesso, dizem, é o equilíbrio, palavra fácil de dizer mas cuja aplicação na prática não é óbvia. De fato, o tal caminho do meio é uma utopia. Como sabemos que estamos trilhando o caminho do meio? A partir do que os outros nos dizem ou ensinam? Pelo que determinamos com nossos valores, pesos e medidas? Todo cuidado é pouco. É possível que sejamos péssimos juízes de nós mesmos, como o personagem Harry Angel na trama do filme “Coração Satânico” (Angel Heart, 1987), de Alan Parker.Vivemos num mundo onde temos que reagir o tempo todo a quase tudo. As pessoas que têm pouca ou quase nenhuma sensibilidade [2], embora sejam de certa forma “pobres diabos”, são os demônios deste inferno: obrigam aquelas pessoas um pouco mais sensíveis a reagir, ou agir pelo que elas deveriam (ou não deveriam) ter feito. Tento exercitar o bom senso, mas há milhares de outros “cães enfezados” lá fora. Pergunto: qual é o limite de (sobre)viver enfezado neste planeta?
Notas:
[1]: Esses momentos são de desafio: com um braço mantê-lo na guia e com o outro ensacar as fezes!
[2]: Digo isso genericamente, com relação às mais diversas questões.