quinta-feira, 24 de maio de 2012

Carta Aberta a um Idiota

Ou a História de Lola e Tania 
 (por Tania Zink Cunha)
Oi seu idiota!
Tu me jogaste fora há 12 anos, lembra?
Eu estava doente. A sarna cobria todo o meu corpo, que já não tinha pelos. Tinha acabado de ter filhotinhos. 
Minhas tetas estavam enormes e eu estava com uma infecção interna monstruosa. Abandonada no centro de Florianópolis vaguei muitos dias sem rumo.  Como não sei disputar alimento com outros cães, fui definhando, me consumindo aos poucos.
Já tinha desistido de viver. 
O frio do final de inverno daquele ano estava cruel e eu não tinha abrigo.  Encolhi-me, suja, molhada e com frio, sob o beiral de uma banca de revistas e fiquei esperando que meu sofrimento acabasse logo.  Naquela manhã chuvosa de oito de agosto de 2001, muitas pessoas passavam por mim. Era cedinho pela manhã, todos corriam, quase ninguém me via. 
Também, não fazia mais diferença. 

Eu aguardava o “nada”.
Uma senhora passou e me olhou com pena. Continuou seu caminho... 

mais um passo e parou. Deu meia volta e se aproximou de mim. 
Eu estava tão fraca que nem manifestei a menor reação. Ela passou a mão na minha cabeça e ficou ali, me olhando. Aí se afastou, atravessou a rua e sumiu dentro de um prédio.
Voltou dali a pouco com um pacote nas mãos. Tirou de lá um pãozinho doce. Nossa, eu adoro doce.
Mas eu estava tão cansada que nem conseguia comer. 
Apenas abanei meu cotózinho para ela, em agradecimento pela primeira atenção que me davam em muitos dias. Ela tentou me alimentar com pedacinhos do pão, mas eu não conseguia comer.
Aí ela se afastou de novo e foi conversar com uns taxistas parados ali perto.
Voltou com um monte de jornais debaixo do braço. Abriu-os, me enrolou neles e me levantou no colo. 
Como eu estava muito magrinha, minhas costelas aparecendo, carregou-me sem esforço Praça XV acima, até uma garagem. Conversou com uns guardas e eles vieram com uma caixa de papelão e um cordão. Ela gentilmente me colocou na caixa, fez um laço no meu pescoço e me prendeu num pilar de madeira. Colocou um potinho com água na caixa. Eu bebi tudo, estava com muita sede. Depois ela foi embora. Fiquei ali, estava quentinho, deitadinha na caixa.
Depois de um tempo, vieram várias pessoas me olhar. 
Ouvia suas conversas: “Nossa, ela ta horrível”, “Jesus, ta muito doente”; “Tadinha, mas tu és louca, Tania”. E se afastaram todos.
Mais uma meia hora e parou um carro próximo. A senhora apareceu. Ela e mais um senhor.
Tiraram-me da caixa e me colocaram no porta malas. Fiquei assustada. 
Tenho muito medo de andar de carro.
Mas logo a porta se abriu e me carregaram para uma sala clara, com um senhor simpático de branco que me deu uma porção de injeções.  Depois de um banho que não acabava mais me colocaram numa gaiola. Não vi mais a senhora.  Aproveitei o calorzinho e o conforto e dormi muito. 
Acho que um dia inteiro. Na manhã seguinte, lá estava a senhora de novo.
Pos-me no carro e me levou para uma casa longeeeeee. Pela janela eu via o mar.
Nessa casa, me pos num cercado, com caminha quentinha, muitos cobertores, água a vontade, comidinha todo dia. Fiquei lá uns trinta dias. 
Todos os dias, ela vinha e me acariciava o corpo todo com um algodão e uma pomadinha. Aos poucos, minha coceira foi diminuindo até que passou.
Os outros cachorros da casa vinham me visitar e logo ficamos amigos.
Num belo dia, abririam o portão do cercado e pude sair. Nossa, que quintal grande.
Pude andar, correr, me diverti a valer. Depois fui conhecer a casa e dei de cara com um sofá imenso, na sala. 
Eu ADORO sofás.   

Sem cerimônia me instalei nele. 
É meu lugar favorito até hoje.
Todas as noites eu durmo nele. Que gostoso.
E assim foi minha vida nos últimos 12 anos: feliz.
Minha dona me ama, meu dono me adora, meus amiguinhos caninos gostam muito de mim. 
Alguns já foram embora, outros vieram, sempre me dei bem com todos.
Alguns até ajudei a criar, sou uma ótima professora e babá.
Tive vários problemas de saúde, minha raça, a dos boxer, é muito cheia de perebas, mas todas foram tratadas e fui sempre muito alegre. 
Minha mãe me chama de SANTINHA, ehehehe, porque sou muito boazinha para qualquer coisa. 
Deixo que me virem do avesso e não protesto por nada.
Agora estou muito velhinha, meus pelos já estão branquinhos.
Embora ainda me sinta bem, sei que estou muito doentinha, uma doença chamada câncer. 
Deve ser grave, porque a minha amiga médica já veio me ver muitas vezes aqui em casa.
Minha mãe me olha com muita tristeza e tem ficado mais tempo comigo, às vezes ela chora muito. 
Eu queria poder dizer a ela para não ficar triste. 
Que eu vou ter de ir embora em breve, mas ela não deve sofrer por isso. 
Ela me disse também, que quando chegar à hora de eu partir, vai me deixar ficar no meu lugarzinho cativo no sofá e vai me fazer dormir um soninho gostoso.
Que quando eu acordar, vou encontrar muitos amiguinhos que não vejo há tempos: a Luna, o Look, a Duda, a Bela, o Bokinha.  Saudades dessa turminha toda. Vamos brincar juntos de novo.
Kim, Igor, Donna, Nina, Tonho, Ully, vocês vão ficar mais um tempo aí em casa.

 
Cuidem da minha dona e do meu dono direitinho e façam eles rirem bastante, como eu sempre fiz. 
Um dia todos nos encontraremos de novo.
Mãe, pai, não chorem, eu fui muito feliz na nossa casa. 
Vocês me deram tudo o que um cãozinho precisa: comida, abrigo, exercício, companhia, divertimento, guloseimas e muito, muito AMOR. 
FUI FELIZ, FUI AMADA, sei disso, senti isso.

Mas cara, eu te contei tudo isso para dizer que realmente você foi um idiota ao me jogar fora. 
Perdeste uma companheira fidelíssima, uma guardiã especial e uma amiga para todas as horas.
Que Deus te perdoe.
Porque eu, eu já perdoei há muito tempo. Se não fosse você, eu não teria encontrado minha mãe e amiga. Um
 lambeijo de despedida. 
Lola 


Abaixo, as fotos que recebi de sua dona, desde seu resgate, em 2001, até hoje. Parabéns por ajuda-la. Pena que a maioria dos casos de abandonos não tenha o mesmo final feliz. Obrigada Nara Lisboa Modesto, por compartilhar comigo esta linda carta. Muita saúde e sorte para vocês. Com carinho e admiração,  Annita.
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